sexta-feira, 21 de novembro de 2025

MentirA

 Eis que resolvo endurecer meu coração...

... ter os olhos abertos e anuviados para o mundo.

Os passos manterei como os de agora...

... cambaleantes.

Penso que assim não serei seguida.

Meus sonhos não serão contados

Entre um sorriso e um suspiro...

... ficarão enterrados.

Minha bebida terá companhia

Apenas do vil cigarro.

Eis que resolvo endurecer meu coração...

... e algo sussurra em mim: mentirA.




segunda-feira, 3 de novembro de 2025

OraçãO

Ela...

Não conta os dias ou lugares,

Não conta as mazelas nem

Bendiz os momentos de prazer.

Ora.

Oração como afeto mais puro.

Conta...

Contas de Lágrimas de Nossa Senhora.

Nossa vontade do bem ao outro...

... a vontade dela pelo bem dele.

Conta...

... sem dizer em voz alta que por ele orou.

Conta ....

... o que dela ficou eternizado ali, no corpo e alma.



 



sábado, 7 de dezembro de 2024

Quartas-feiras

 Ele já tinha tomado umas cervejas... os olhos brilhavam. Do outro lado da linha estava ela, acabando de sair do trabalho. 

Da boca dele saiu uma frase que fez o coração dela pular uma batida, e ele jamais saberia.

Ela, caminhou dançantemente para casa, parando apenas na padaria para comprar umas cervejas.

Em seu sofá, com luzes natalinas e ao lado da janela, viu a chuva iniciar.

Restava a noite de sono e o até amanhã.




quarta-feira, 20 de novembro de 2024

Olhos famintoS

 

Acredito ser esses olhos famintos

Que provocam em mim esse desvario,

Acometendo meus pés antes distintos 

Caminhantes de um percurso sumário. 

 

A recém assimilada solitude 

Ornada de momentos silenciosos 

Caiu por terra da maneira mais rude 

Frente ao maior sorriso capcioso

 

Então livros, plantas, pássaros, todo lar

Provaram a mescla agridoce da paz

Com doses desproporcionais de caos

 

Tal como a Ilíada e os dânaos 

De um coração em uma batida voraz

Vejo que nada pode fazer serenar ...



domingo, 20 de outubro de 2024

TarantinO

 

Em uma mesa requintada

A Previsibilidade oferece café

Juntamente com bolinhos.

“Acalme seu coração”, ela diz.

“Hoje é o ontem atualizado,

Nada será modificado”.

Servindo uma caminhada já traçada,

Cheia de passos já contados.

No canto o Conformismo ri baixinho,

De todas essas vidas bem articuladas.

Eu categoricamente dispenso o café.

Quero uma caminhada singular,

Quem sabe com roteiro do Tarantino.

Com direito ao coração palpitando,

Os olhos brilhando e ...

.... e desejo de completude.




segunda-feira, 7 de outubro de 2024

SantuáriO

 

Uma aliança com a corda Mi

Foi o que Adoniran Barbosa fez

Para a sua amada.

Era seu bem mais precioso...

... que ele ofertou com liberdade.

Embalada pelo samba eu fiz minha doação.

Construí um santuário com paredes de livros.

As janelas adornadas com poesias e afeto.

Espalhados pela casa vasos de plantas...

.... compartilhavam espaço com os livros que sobraram.

Velas perfumadas tremeluziam ...

...nos cantos já iluminados.

Sempre cheia uma garrafa com café fumegante...

.... para aquecer as manhãs, que sempre tinham

.... gosto de domingo.

No quintal as plantas e os pássaros transbordavam ...

... o bem querer que emanava de dentro.

Em especial a buganvila branca...

... com os galhos em oração.

Desejando que aquele tempo fosse eterno, enquanto durasse.




terça-feira, 1 de outubro de 2024

QuintaL

 

Comecei a criar pássaros...

... muito por acaso.

Eles pareciam ficar curiosos quando eu ...

... estando em casa, ouvia música.

Pouco depois eu já oferecia frutas, água e ração.

Tenho sabiás, rolinhas e até canários.

Preenchendo um espaço no quintal ...

... que eu não havia percebido que existia.

Estando na janela sinto seus olhinhos,

Brilhantes e tentando me decifrar.

Passo um tempo incontável sentindo

Esses pequenos se agigantarem em mim.

E esse texto nem é sobre aves.




quarta-feira, 25 de setembro de 2024

JustiçA

 Colocou Chet Baker para tocar...

... começando por My Funny Valentine.

Entre um cigarro e outro arrumou a casa...

... com especial cuidado os livros.

Tudo limpo e em ordem, sentiu seu caos.

Uma balbúrdia tão grande que respirar era pesado...

... tão pesado quanto um querer bem.

Chet Baker canta “Time After Time”

E entendeu que a mentira que teimava em acreditar...

... vez após vez, estava consumindo o que tinha de maior valor:

A virtude da justiça.

Desassossegada, saiu para andar.

Chegando na esquina, para atravessar a rua, sentiu o vento...

... e enquanto percorria o curto trecho de asfalto viu as folhas dançando,

Como que para festejar o final do outono.

Um bailar descompassado, que apertou mais seu coração.

Liberdade: um dos pilares de sua virtude tão rachada.

Ser livre é estar pronto para fazer o bem....

... independentemente de quem o receber.

Caso contrário o vento das consequências te aprisiona...

... numa dança interminável, de um outono de vendavais.

Chegou ao outro lado da rua, certa que precisava de uma bebida.

Naquele dia e horário, apenas a padaria poderia ser sua salvação.

Entrando no estabelecimento viu um senhor com aparência desorientada,

Procurando por algo com aflição.

Observou por um tempo, que pareceu longo demais, diante da angústia do homem...

... e ninguém o ajudou, pois estavam preocupados em atender uma senhora cheia de adornos.

Aproximou do homem, perguntando se poderia ser útil...

... escutando dele que só queria achar a caixinha de leite.

Mostrou ao homem onde estava o produto, e viu a gratidão em seu olhar.

Questionou, mentalmente, se esse desleixo com ele seria devido sua vestimenta ou idade...

... e outro choque bombardeou seus pensamentos: por onde anda a igualdade?

Como que a Justiça permite que a igualdade esteja esquecida...

... sendo que isso a faz igualmente escusa.

Pegou sua bebida e voltou quase em galopes para casa.

Seu lar, de poucos cômodos, só os essenciais...

... com mobílias franciscanas, muitas plantas e muitos livros.

O mundo sob seu governo.

Ela entendeu.

Melancolicamente entendeu.

Que ser justo nem sempre é imediatamente bom,

Contudo, o bem se faz necessário, para se ter paz...

...paz para ouvir Chet Baker e ...

... beber algo envolta em fumacinhas dos cigarros.




domingo, 8 de setembro de 2024

EnlaçadoS

 

Os passos marcados em nossa trilha inerente,

São fios singulares, com os quais tecemos nossa fita.

Estampada com a marca da bagagem que carregamos,

Que arrastamos por dias e dias a fio,

Com os olhos famintos e a pulsação ritmada,

Desejando tecer sonhos, toques, manhãs mornas,

E conversas livres.

Contudo, acontece mesmo com um mar de distância,

Sem nem mesmo a possibilidade da entrega de cartas,

O grande tear ganhar vida e produzir um inesperado laço

Com vontade própria e descompromissada

Fazendo com que as bagagens, os olhares e as peles

Se encontrem assim inesperadamente

Em um cenário enlaçado.




terça-feira, 3 de setembro de 2024

Pezinho de manjericãO

 

Propagam que os grandes escritores, grandes poetas

São assim reconhecidos por falarem de coisas simples.

E eu, que sempre fui encantada com as letras e livros,

Me vejo estrangeira nessa categoria.

Como entender como simples o caminhar numa calçada no domingo,

O silêncio não constrangedor ou o calor das peles que se encontram,

A chuva batendo na janela ou uma árvore do meio da estrada.

Nada disso é simples... pelo contrário: é o tudo,

O universo.... caos e o farol ao mesmo tempo.

E olhar para esse tudo que nos rodeia, gesta um sentimento de

Transparência, imensidão e plenitude,

Faz querer que se escreva uma epopeia sobre

O pezinho de manjericão na janela da cozinha,

Sobre o olhar de prazer da pessoa desejada,

O sorriso da criança amada.

Penso que o vulto desses escritores, desses poetas,

Esteja em traduzir todos esses sentimentos em letras que

Todo e qualquer mortal consiga armazenar pelo corpo,

Entendendo que nossa finitude não carrega o completo fim,

E sim semente, letras e memória.




segunda-feira, 2 de setembro de 2024

SilênciO

 

Vem sentir o silêncio comigo,

Não se incomode com o vento na janela.

Teremos apenas os olhos conversando e

Traduzinho o que as mãos fazem.

Vem sentir o tempo parando,

Fazendo eterno o que vivemos,

Cada gesto ficando marcado na pele,

Vem sentir o silêncio comigo,

E saciar a fome de liberdade.




segunda-feira, 26 de agosto de 2024

MenestreL

 

Nos reinados atuais, onde a nobreza corteja em redes sociais

Com seus palácios de finos vidros e coroas virtuais

O menestrel ficou esquecido, num canto abandonado,

Os poemas e cantos não são mais aclamados.

Ele teima em se fazer presente, nos encontros filmados e postados.

Recita versos que não são mais escutados,

Sua música é abafada e sua voz não é ouvida.

Ele teima em circular, tentando se aproximar da nobreza,

Mas sua aparência comum e sua cultura de ontem é rejeitada.

Ele não sabe quais sinais deve enviar para ser notado.

E tudo nele é rejeitado.

Sem saber a qual lugar pertence, 

Um ser de Lugar Nenhum.

 




segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Édith Piaf nunca cantou tão triste

 



 No meio do caminho havia riquezas,

Dessas que não se pode ceder ou comercializar.

Que rebentam músicas exclusivas.

E eu, com olhos de rubi, recolhi cada uma que coube em meu embornal.

Carreguei com a urgência dos que tem fome.

... fome de amanhã, fome de outra asa.

Fazendo a mais valiosa melodia andarilha.

Mas numa dessas curvas, que nem me recordo mais,

Quis ver o sorriso nascer em outro viajante,

Compartilhando passos em uma calçada esburacada,

Mas com trilha sonora singular,

Uma dança dominical.

Nunca soube se tive sucesso, mas

Desde então, meu embornal passou a ter um peso infortúnio,

Do tipo que turva óculos e aumenta a sombra,

E Édith Piaf nunca cantou tão triste.

sexta-feira, 3 de junho de 2022

...vazioS

... alguns vazios não podem ser preenchidos. penso neles como machucados, que param de sangrar, depois param de doer, criam uma casca e, ao passar do tempo, tornam-se cicatrizes. isso, são vazios cicatrizes. podemos até arriscar uma "auto mentira", executando uma tatuagem sobre eles, mas eles estarão lá, por baixo do rabiscado.

... e uma nova analogia surge nessa minha divagação: esses vazios cicatrizes são como a costura de uma colcha de retalhos. nossos muitos pedaços unidos por essas linhas disformes que percorrem todo nosso corpo, nossa alma. 

... a tarde dessa sexta-feira, que começou ensolarada, se fez cinza. até as plantas do desconexo jardim estão apagadas, como se ao final de suas forças para sustentação nos vasos embaralhados. talvez, quando for noite e eu estiver fumando e olhando para lugar nenhum, cante para elas, aquelas canções que acreditei que seriam parte de uma boa história.

... curioso como eu, em certa época, contei com tanta vibração e brilho nos olhos, sobre os encontros, desencontros e reencontros. cheguei a narrar a mágica do universo em unir pessoas, acreditei em predestinação. construí planos, fundados nos sonhos que costurei por muito tempo sozinha. Eu ainda estou aqui, mas já não tenho mais os planos, durante o caminho fui abandonando sonho por sonho, junto com outras partes de mim e hoje, nessa tarde cinzenta, percebo a dimensão do vazio que ficou... pois até as lembranças eu não consigo deixar registradas, por não saber o que é real e o que não é.

... eu quis contar que gravei no metal da minha pele o seu desenho, por alguns dias achei que teria a chance de mostrar ... agora sei que não e os dias arrastaram e não há mais o que dizer.

... a tarde dessa sexta-feira, que começou ensolarada, se fez cinza ... logo será noite... logo fará frio ... e outro dia vai chegar e ir embora e eu ainda estou aqui. 


... alguns vazios não podem ser preenchidos e vou conviver com eles, juntamente com as flores apagadas, os copos pelas metade, os cigarros amassados e meus olhos de rubi. serão combustíveis para o aprendizado de que não se pode ter respostas para todos os questionamentos, nem se deve. gritar para conseguir os porquês não faz com eles apareçam. chorar alivia um pouco e esvazia mais e mais. e eu ainda estou aqui. e eu tenho pela frente essa encruzilhada: continuar com versões irreais ou aceitar que o vazio seja de vez tudo o que pode ser visto dentro de mim.


quarta-feira, 27 de abril de 2022

PapelãO



Então a gente vai encaixotando o que ficou, aos poucos, às lágrimas... Chinelos, livros e camisetas... Uma história dentro do papelão. Certamente que o tempo e a poeira acionarão o alarme para limpar as prateleiras do escritório e uma carta, propositalmente guardada entre livros que então faziam sentido, cairá no chão. As mãos irão tremer e reler cada palavra vai fazer sangrar. Descobriremos que o exame do que devia ser guardado, queimado... quase esquecido, foi falho.

Mas antes mesmo da carta cortar os curativos, num gesto de fantasioso controle é removida a foto que aparece quando a pessoa ligava, mesmo porque a gente sabe, nega da boca pra fora mas sabe, que essa pessoa não vai mais ligar.

Repetimos em pensamento, em sussurros, aos berros, que amanhã vai doer menos e menos, uma progressão decrescente de dor, e mentindo esse mantra como consolo, contamos as horas, os cigarros, os cafés. Contamos as tardes dos domingos que agora estão vestidos de um novo tipo de solidão.

Tentamos transformar em ponto final as reticências que pairam no ar, sabendo que logo ali, após a porta que ficou aberta, estão os mais cruéis primeiros: o primeiro Natal, o primeiro Réveillon, a primeira conquista que não será compartilhada, a primeira banda de rock descoberta, o primeiro livro incrível que alguém indicou. Esses primeiros, com seus dentes amarelados de nicotina, desalinhados pelos socos, irão avançar em nosso pescoço. 

Então a gente vai encaixotando o que restou, aos poucos, à seca ... Cacos de sentimento, sobras de planos e sonhos. Um amor dentro do papelão.

segunda-feira, 14 de março de 2022

DelicadezaS

 ... não estão conseguindo limpar a sujeira há muito entranhada nas ruas, casas, veículos, pessoas. Profissionais de limpeza urbana, diaristas, mecânicos, médicos e esteticistas usam verdadeiros arsenais e a sujeita continua instalada, sempre exalando o absurdo da atualidade, derrubando máscaras e desafiando a aspiração ao bom e ao belo.


Diante desse cenário a DelicadezA, cada vez mais tímida, em um desuso esmagador, vestiu-se com a melhor couraça que pode encontrar e refugiou-se da melhor forma que conseguiu, mas não tão distante como gostaria ... couraças são como mágoa ... difícil de serem carregadas, pesam mais a cada passo. Tem sido difícil comer, o alimento é escasso, raro encontrar doçura, suavidade, cortesia... a DelicadezA habita impercebível em gavetas, prateleiras, brinquedos de pelúcia esquecidos no fundo dos armários, nas esquinas, jornais e anúncios de televisão, esmaecendo seu brasão.

Mas ela ainda sobrevive ... vez ou outra encontra quem se delicia com minutos olhando para o céu, quem sorri com boas notícias ou chora dividindo a dor com o outro. Seres que possuem os olhos transbordantes de sentimento, e se recusam a deixar que a sujeira vire uma segunda pele. Quem suspira com o vento no rosto, tem livros e músicas espalhados pelo lar, pelo caminho. A DelicadezA sobrevive nos pequenos gestos, no pão com manteiga, na foto emoldurada, no cheiro do travesseiro numa manhã de sol, na fruta amadurecida no quintal.

A DelicadezA sobrevive, e quem a cultiva espera a era em que será tão corrente quanto a sujeira que hoje a esmaga, pois bem sabem ser utópico um mundo completamente liberto da bestialidade.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

... os moinhos de vento são, de fato, moinhos de vento...
a lança empunhada destina-se a demônios inalcançáveis, internamente distantes...


sexta-feira, 8 de novembro de 2019

DedicatóriA


... dos acontecimentos que despertam um bem estar, um bem querer nos olhos, ver uma dedicatória em um livro comprado em sebo está na lista das dez melhores. quantas histórias as expressões "com carinho" ou "com todo meu amor" carregam. em algumas vezes um "lembrei de você" é mais que um abraço, é um enlaço. 

... acabo de receber pelos correios um novo livro usado...vindo direto de um sebo virtual e ao pegá-lo sinto aquele cheiro de palavras que dançaram já em outras mãos. o cheiro invade todo meu corpo e praticamente flutuo. então acontece: abro o livro e na primeira folha está:



Para Ubaldo, uma pequena lembrança das minhas andanças. Com todo meu amor... Laura.
... e para abrilhantar a dedicatória, uma data:

16/10/1988

e toda magia do um novo livro para leitura ganha novo sabor, novas cores. além da história que ele propõe, tem a história do Ubaldo e da Laura... são 30 anos de uma frase que, nesse exato momento, faz nascer um filme de infinitas possibilidades para eles. que amor era esse, de carnaval ou fraternal? Laura ainda dá livros para Ubaldo? estão vivos... e imagino tudo que veio depois dessa data e, nas minhas ilusões, eles estão agora num café. Laura tem os cabelos curtos, pois cansou do antigo visual. Ubaldo continua leve e sempre viajam, pois as andanças dela agora são deles. algumas vezes as histórias tem brigas. uma mulher simplesmente falando que irá embora, que entende os motivos do homem mas, não consegue ficar. em outras vezes ela está com os olhos transbordantes. mas não gosto muito dessas vertentes. confesso que prefiro as doçuras de "ficaram felizes".

o novo livro usado, mais que uma nova história, trouxe horas e horas da crença no lado bom da vida. crença de que os livros são fundamentais nos contos cotidianos de cada um.







segunda-feira, 18 de março de 2019

EpifaniA





Uma poltrona no canto da sala
Sentada
Na janela a chuva
Para alguns uma cena ensaiada
De novela ruim, filme ruim, 

Era minha epifania.

Você entra pela porta
Traz em uma das mãos o café
Na outra dois cigarros
Um pousa em minha boca
Após um beijo delicado

Era minha epifania

Letras embaralhadas
As frases já estampadas
Em pernas, braços, barriga
A poesia viva
Escrito com sua língua.

Era meu (...)

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

O maR



Quis escrever um poema ... os dedos já não me obedecem como antes. 
Um pequeno conto talvez, ou simplesmente um hai-kai.

Sentada num lugar comum, apátrida, consigo visualizar todas as palavras perdidas. 
Elas dançaram em meus pensamentos durante as últimas horas.
As palavras ficaram velhas até.
Marcado na minha pele um mar revolto: seus olhos. 
Um mar carregado hoje do mesmo brilho de ontem. 
Mergulho nesse mar.

Fumaças de cigarro pela janela. Sentidos despertos.
Os livros em cima da mesa são como gatos.
O uísque ao longo da noite, uísque carregado de música.
O café forte ao acordar e as curvas da estrada que fazem meus braços procurarem as suas.

As ruas calçadas com pedras, que teimam em me deixar ir. 
Um tempo que não para. Horas que não cessam.

Cada segundo.