terça-feira, 19 de abril de 2011

Quadro

Para não dizer que eu não falei das flores havia uma planta, no fundo do lote, com pequenos cachos delas, num vermelho alaranjado, num vermelho fogo. Vários pequenos buquês, tão vivos, contrastando com o cinza do tempo grudado no muro. E havia mais, havia todo o azul do céu, com parcas nuvens. E havia mais, mais e mais, o silêncio quebrado em intervalos difusos, pela fumaça. E essa imagem típida de domingo foi pintada em aquarela e lá está, lembrando-me dos pequenos buquês, do muro, das nuvens e fumaças... e de todo amor que há nessa vida!

terça-feira, 29 de março de 2011

Berro d'água



Hoje não posso reclamar do sol. Penso que derreteu (amoleceu???) algo em mim. Foi como há muitos anos, quando estava debaixo de um telhado de zinco, vendo minha avó com sua pele castigada e negra, mascando fumo e entoando cantingas de umbanda....




Quisera saber as respostas para as questões da vida. Na verdade, creio que me bastaria saber as perguntas, porque, sabendo-as, saberia que há respostas a serem buscadas. Sei que é muito fácil ficarmos tristes, ou mesmo passarmos a vida inteira tristes. E que nossa tristeza decorre em sua maior parte de vivermos para os outros, e não para nós mesmos, como seria o certo.




Vivermos para os outros em todos os sentidos; desde a roupa que usamos porque nos disseram que devíamos usar, ou o livro que escrevemos para que nos achem mais sábios, até o trabalho que toleramos (engolimos), para agradar a todas as aparências sociais. Um dia ainda coloco um nariz de palhaço só para que todos me digam que não o posso usar, porque, afinal: o que é que os outros pensariam? Onde estão afinal esses “outros” de que tanto nos falam? Que tantas verdades lhes diria, se os encontrasse? Esses outros não existem, mas de tanto ouvirmos falar deles acabaram por existir em nós mesmos. Em todos nós. Não ponho um nariz de palhaço porque eu não poderia coexistir com a idéia que eu faço de mim mesma.




Mas é tão fácil também sermos felizes que nem acreditamos. O que realmente queremos, e não o que querem por nós desde que nascemos, não podemos comprar ou conquistar porque já nos foi dado de graça, sem que o pedíssemos. Falam em caminhos ruins e sem volta. Todos os caminhos são sem volta. O que chamamos volta já é, em verdade, um novo caminho. De forma que só vale pensar no caminho a percorrer: que possa ser o melhor possível. Não vou repetir aqui as incontáveis lamúrias que tantas vezes disse sobre emprego e sobre ser filha, até porque quero já quero pensar o mundo a partir de mim mesma. E quero ter um inquebrantável otimismo em relação ao destino humano




Temos todos uma vocação inata a Quincas, resta-nos apenas descobrir nosso próprio berro d’água.




Exausta

... desde ontem essa mulher invade meus pensamentos. Com sua delicadeza e simplicidade de escrever exatamento o que estou sentindo. Quando será que foi isso?


Dormir.


Descansar horas a fio.


Muito mais que raízes.


O vento que entra pela janela é quente. E não consigo dominar o desejo de ficar aqui até quando o sol morno entrar pelo quarto e ainda continuar, e continuar... somente com o leve trabalho de rolar na cama, ou nem isso. Ficar com meu livro estilo "seção da tarde" .

"Eu quero uma licença de dormir,

perdão para descansar horas a fio,

sem ao menos sonhar

a leve palha de um pequno sonho.

Quero o que antes da vida

foi o sono profundo das espécies,

a graça de um estado.

Semente.

Muito mais que raízes." *





E por mais contraditório, ficar assim me deixa leve, num estado de livre e feliz, contudo os pensamentos continuam efémeros ... e todo o ninho de frases de ontem hoje são farelos no chão. E nada mais está em minhas lembranças senão as frases dessa mulher... sua imagem com cabelos cor de prata, um sorriso tímido... e continuo completamento absurda.


(*) Adélia Prado - Bagagem

terça-feira, 8 de março de 2011

... a janela do outro lado!


O cotidiano é confortável... era pelo menos. Todos os dias eu via as fumacinhas pela pequena janela. Sabia que ela estaria lá. Ok, talvez nem todos os dias... mas no horário do almoço era visível... esperando perto da escadaria, com os cabelos sempre desarrumados, tênis, e uma expressão de "tanto faz como tanto fez". Adoro.
Então veio esse feriado prolongado. Nada... de minha janela só vejo gotas e mais gotas de chuva. Nenhum fumaça (nunca era fogo mesmo). Imagino que em qualquer outro lugar da cidade - ela não é do tipo que enfrentaria música ruim, pessoas estranhas, e horas de estrada - lá estará. Talvez com os cabelos presos, evitando o shampoo... talvez não. E eu fiquei aqui a imaginando voando pelas janelas... enfumaçadamente. Creio que durante todos esses longos dias ela esteve com um livro debaixo dos braços, lendo entre lençóis e cafés, ouvindo música e deixando-se ficar . Tanto faz como tanto fez. E eu comi esperança do almoço, todos os dias.



terça-feira, 2 de novembro de 2010

...nesse último mês.

" (...)e perguntava a Deus, sem medo, se realmente acreditava que as pessoas eram feitas de ferro para suportar tantas penas e mortificações (...)"*


Naqueles dias a brisa invadia a casa com uma intensidade sem igual. Todos os cantos eram inundados pelo cheiro das árvores que existiam do outro lado do muro. As azaléias na janela ficaram num estado de timidez no começo, mas restabeleceram-se com o passar dos dias.

Ela tinha os passos curtos e contínuos que davam a impressão de estar em todos os cômodos ao mesmo tempo. Não houve espaço para almofadas de teias de aranha nas quinas dos tetos, nem proliferação de cupins ou acumulo de pó nos móveis. Todos os dias eram sábado. Como se o tempo estivesse congelado...só como, mas não estava. O barulho do relógio que fica na sala lembrava constantemente com seu tic-tac, que ela nunca percebeu ser tão alto, que os ponteiros não param.

As marcas de descuido sobre a tinta branca que cansava os olhos, já tinham o aspecto de tatuagem da casa. O lugar onde respingou café quando a xícara caiu, o outro que tinha um risco de móvel arrastado, ou a marca da água que escorre pela janela, todas as vezes que chove forte. Como um caminho que é feito todos os dias no mesmo horário, e é conhecido tanto os buracos das ruas, como as pessoas que estarão, assim era todos os detalhes da casa. O chão da área de serviço tinha uma marca amarelada, da água que escorria do canteiro de cebolinhas e salsinhas. Precisava de escova e sabão. Mas ficou para depois.

A suspeita do envelhecimento era todos os dias confirmada pelo espelho, e pelos fios de cabelo que preferia acreditar brancos e não loiros. E a certeza de ter perdido algo importante pela casa, e não saber onde estava, era tão forte e triste que causava uma dor física.

O barulho das folhas das árvores do outro lado do muro era tão tranquilizante. O tamborete branco feito de mesinha para o telefone e o tamborete de madeira, com um lenço lilás, feito de mesinha para os livros foram recortados de um poema da Adélia Prado. Os travesseiros e almofadas (não as de teias de aranha) sobre o lençol delicado faziam do quarto de dormir um lugar realmente de repouso. Nem a chuva de insetos que certa noite invadiu a casa quebrou a rotina estabelecida. E sempre haveria de lembra o que Úrsula dissera: "o tempo estava dando voltas num círculo vicioso."* E todas as noites os livros ganham voz e braços e fazem um cafuné até que ela durma.


(*) frases retiradas de Cem Anos de Solidão - GGM.

Desenho retirado do site: Kurt Halsey - http://www.kurthalsey.com/

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

... os sonhos perdem a hora certa!


- Está escuro aqui, e eu estou com medo...
- Calma, logo chegamos ali no alto e ficará tudo bem.
- E se eles nos alcançarem? Se pegam a gente, o que acontece?
- Calma, você precisa pensar positivo, vai dar tudo certo, tudo ficará bem.
(...)

- Tem certeza que estamos chegando?
- Tenho...
- Tem certeza que vai ficar bem?
- Tenho...
- Tem certeza que conseguiremos chegar onde queremos?
- Tenho... mas antes de mais nada, a maior certeza que tenho é que estamos juntos! Lembra do Afif?
- Uai, que diabos tem o Afif com isso?
- Juntos chegaremos lá.. kkkkk

(...)
(...)
- Cara, nessa escuridão toda, e eu consigo rir e ficar bem... obrigada!
- Ah, depois eu mando a conta!
(...)

- Olha, eu vou pular!
- kkkkkkkkk... você? Pular? Como?
- Aqui eu consigo pular, e temos que ser rápidos.
(...)
(...)
(...)
(...)
(...)

- É...que alivío que aqui você consegue pular...rs
- Tô quase lá...quaaase...
- Espera..vou ajudar. Sobe no meu ombro, mas rápido que você está pesado.
- Ah, vai morder E*** na bunda...
- Anda...
- Ufa...
- Tudo bem ae em cima?
- Claro... agora vem...
- Não consigo pegar sua mão, tá longe...
- Espera, tenho uma corda?
- Como??? Ah, deixa pra lá, joga...
- Vem logo, vem logo, estão logo atrás de você...
- Argh... tô indo. Puxa, puxa, puxa logo...

(...)

- Ufa..
- Tá pesadinha... kkkkk
- Falou o magrelo...kkkkk
- Que bom estar aqui com você. E quem disse que estar no mundo da lua era ruim?
- Ruim não, incomum.


pepepepepe... pepepepe...pepepepe...pepepepepe...pepepepe... 05:45 a.m.


sexta-feira, 11 de junho de 2010

Cortinas na janela...

A luz que entrava no quarto já não era tão fraca, já não era tão azulada, e o amarelo que invadia a janela era quente. Os lençóis brancos deixavam todo o quarto tranquilo. Era a tranquilidade que faltava. Do lado de fora alguns barulhinhos bons, entre eles um grilo na janela. Acendeu um cigarro, e olhando para o teto sentiu pela primeira vez o medo do que estava por acontecer. Agora a luz já obrigava cortinas na janela, e prorrogava a certeza do dia ser de um calor infernal.



Não precisaria sair de casa tão cedo, ou melhor, não precisaria sair. Havia pão e o necessário para uma sopa fumegante. Caso o calor fosse daqueles insuportáveis, faria um suco e deixaria esvair com a fumaça todo aquele medo.
O grilo continua cantando. Isso foi o suficiente para mais um longo tempo com os olhos vidrados na janela. Talvez o grilo gostaria de entrar no quarto dela e ouvir música. Percebeu de súbito que o grilo tinha uma das patas machucadas. Quis mutilar a sua perna para compartilhar a dor com o grilo. Quis gritar para que o sol voltasse para o amarelo "o dia acaba de nascer". Quis gritar mas não havia ninguém para ouvir.