sábado, 21 de julho de 2012

Dentes-de-leão


Quando virei a esquina e comecei a andar por aquela rua, tinha a certeza de nunca ter estado ali. Não conhecia os prédios, as janelas fechadas das casas não lembravam nada. Nenhuma árvore ou arbusto era familiar. Um lugar novo e sem aquele sentimento de gosto bom nos olhos. Os carros passavam rápido e as pessoas tinham um tom de cinza na pele.

De forma mecânica eu abri a bolsa, peguei um cigarro e continuei andando, sem muita certeza se estava no caminho certo.

Foi quando um pé de vento levantou todas as folhas secas que inundavam o passeio. Senti na mesma hora o cheiro de ontem. Senti aquele perfume bom que existe atrás da orelha da pessoa que se gosta. Minhas pernas fraquejaram, e eu não conseguia decidir se deixava-me ficar ali ou se continuava. Nessa horinha de descuido tudo ganhou uma aparência nova. Bem disse que felicidade se encontra assim.

Sempre gostei da brincadeira que o vento faz quando levanta as roupas, acaricia as peles, bagunça os cabelos e hoje, além de tudo, ele invadiu minha alma. Intruso, conseguiu que tivesse vontade de sentar na grama, ficar descalça e ler um livro antigo, tomar café, e esquecer do tempo, que aliás tem feito-me prisioneira de um modo que não gosto.

Quis ser vento, quis ser suave e inesperada ... e fazer o ontem também sentir um gosto bom. Cantar nas frestas das janelas, espalhar dentes-de-leão no ar para quem ver sentir minutos de bem estar como eu sinto quando isso acontece.

Quis ser vento e ir...





domingo, 10 de junho de 2012


Foi quando eu virei a esquina e a vi. Estava sentada nos degraus da escada, as pernas levemente abertas. Usava sapatilhas marrons, um calça preta, uma camisa xadrez, e óculos com armação em acrílico. Tinha os cabelos curtos e bagunçados pelo vento. Próximo ao pé um telefone celular e um isqueiro semelhante a um Zippo. De onde eu estava não consegui perceber todos os detalhes, mas certamente não usava nenhum batom: não pode existir um batom com uma cor tão atraente. Sei que tinha as unhas da mão pintadas, mas a cor exata não consegui reconhecer, mas era algo próximo à cor do xadrez da camisa. O tempo estava parado. Naquela hora senti toda a solidão do mundo, como se somente sentado naquele degrau eu existisse. A fumaça que soltava pela delicada boca quase me fez bater o carro. Estacionei em fila dupla e usei, pela primeira vez, o recurso de tirar fotos pelo celular. Deixei imortalizado aqui, aquela imagem que eu certamente não esqueceria. Na rádio uma música estilo baladinha, que não sei o nome. Esperei até que ela levantasse, limpasse a calça e entrasse no prédio. Engraçado como entrar numa rua errada fosse mudar todo o meu mundo certinho. Eu, um cara que tenho livros, discos, textos, todos catalogados, roupas e sapatos organizados por cor, perdi toda a razão pelos padrões.

Quando cheguei em casa ainda não acreditava que faltou a coragem em descer do carro e perguntar o nome dela. O pequeno apartamento não tinha fim, nem limites. As cores das paredes escorriam e a geladeira escondia toda a cerveja que eu quis beber. Saí e fui até a loja de conveniência mais próxima. Comprei mais algumas garrafas e me perdi em tantas marcas de cigarro. O rótulo certamente era vermelho, mas qual seria? Não conseguia adivinhar e isso fez-me triste novamente. Só restava esperar pelo próximo dia e confiar que ela ainda estaria lá...

(...)

Arrisquei parar o carro. Caso conseguisse a ousadia necessária não queria ser interrompido por buzinas, por ter parado em fila dupla, tentei gentilmente explicar para o tomador de conta de carros que seria breve o tempo que ficaria e nesse meio tempo perdi a voz. O dia todo iluminado por um sorriso em minha direção.  Chegou tão perto que senti que meus pensamentos foram roubados. Ela sabia, de algum modo ela sabia que eu estava lá apenas para vê-la, foi quando a voz mais suave que eu poderia ter imaginado pediu ao cara do meu lado que lavasse o carro dela naquele dia. Abriu o carro do lado onde tinha estacionado o meu, retirou uma cartela de cigarros (que agora sei a marca) e entregou a chave, com toda a confiança ao homem. "Saio     ás 17:00 horas, ok?". E eu fiquei com duas opções, dizer a ela que tudo era diferente agora ou esperar até o final do dia. O homem do nosso lado não perdeu a oportunidade: " (...) ele está na dúvida se lava o carro, o que falamos para ele?"... e novamente eu perdi meus sentidos ... "Lave, é boa a sensação de voltar para a casa num carro limpo." Sorriu e foi embora para sentar no mesmo degrau de escada. Órfão de amor, não vi outra opção senão entregar as chaves para o homem e ficar ali, do outro lado da rua, sem ação nenhum.
E foi uma eternidade o tempo. Quando ela finalmente saiu, carregando uma mochila igual uma corcova, várias caixas e uma expressão cansada, resolvi aproximar-me. "Posso ajudá-la?". E seu sim foi apenas um sorriso, que fez forte. Colocamos tudo em seu carro, e senti que seria a última oportunidade de falar do meu encantamento: "queria tomar um café contigo. - Engraçado ter esperado tanto, e simpático ter voltado hoje... amanhã já não estarei aqui, mas vamos ao café, quem sabe não será o último nosso." Todo o diálogo em um milésimo de sorriso, em meio a dentes que eu desejei cravados em mim, e nenhuma coragem. Acho que perdi a fala. Ao entrar no carro, ela quase dependurada na janela agradeceu e esticando a mão entregou-me um cartão: "olha, não venha amanhã se sua intenção for me ver sentada no degrau da escada, já não trabalho aqui, mas esse aqui é o número do meu telefone. Quando for a hora, quem sabe um café?".



quinta-feira, 15 de março de 2012

Vontade...


E foi quando a vontade de ir embora ficou maior que qualquer sentimento ou desejo. Uma vontade tão grande e esmagadora que o coração despedaçou-se em inúmeros cacos. Deus, com Sua bondade infinita, recolheu todos os pedaços e fez um delicado pássaro.


segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Capítulo III - De como aprendi a gostar da beira do rio e outro sucessos que ninguém contaria...

Quando dei por mim já era comparado com os garotos grandes. Não cheguei a apanhar, ter meu lanche roubado ou meus cadernos jogados em poças de lamas. Eu simplesmente passava desapercebido, apesar de ser uma pessoa de estatura alta, ter olhos muito negros e dentes muito claros. Cão, sempre companheiro me seguia. Minha mãe já tinha cabelos de prata, e uma felicidade cantada juntamente com os discos de vinil, na vitrola antiga. O tempo não passava, não existia. Uma roda da fortuna que não virava, simplesmente não rodava. E eu não sabia mais das cores. Tudo me era tão monocromático, até a tarde de terça-feira quando eu e Cão estávamos voltando para casa...
... ele saiu correndo e afastou-se da estrada. Sem entender qual motivo, sem ver nada que chamasse tanto sua atenção, corri atrás. Corremos por uns bons (e exaustos) dez minutos. Então senti o suor quente fazer minha roupa grudar nas costas, meus olhos arderam e não vi, num primeiro momento, o que o fez parar. Meu coração apertou-se como se uma mão muito forte o esmagasse. Lá estava ela. Tão clara, tinha a postura firme, mas os olhos tão melancólicos, e um livro de capa verde entre as mãos. Cão já tomara conta do espaço, sentado ao seu lado, cheirando-a e recebendo tantos carinhos que eu quis ser ele. Percebendo minha presença virou-se e sorriu.Caí de joelhos e senti que morri o correspondente a um mês, e tive a certeza de ser marcado para sempre, como uma tatuagem feita em minha alma. Lembro ainda daqueles pezinhos que lembravam pão, os dedos delicados, o nariz arrebitado, a boca sempre com um sorriso. Aproximou-se de mim um pouco preocupada e quis saber se eu estava bem. Nunca mais estarei, pensei, e só consegui retribuir o sorriso. Desse dia em diante nos víamos sempre.

sábado, 12 de novembro de 2011

Capítulo II - De como as pessoas acreditaram na normalidade e outros sucessos

Aconteceu de nunca mais haver apenas a noite. As 24 horas eram distribuídas perfeitamente conforme as estações do ano. Longos dias no verão, e longas noites no inverno. Aliás, sempre escutava os anciãos da cidade comentando que há muito não era tão nítida cada época. As chuvas que definiam as estações, as folhas que caem ou flores que nascem, numa sincronia que trazia lembranças e lágrimas nas histórias contadas em bancos de praça. Nunca mais ouvi ninguém comentar sobre aquele ano de noite sem estrelas ou lua. Era como se eles não recordassem ou acreditassem. Os animais somente eram assunto quando criavam um número além do esperado, e isso era raro. Nunca mais nasceu nenhum bicho com anomalia. Eu esperava o pior com essa calmaria toda, e mais que tudo, aprendi a não conversar com ninguém antes dos três anos de idade. Ninguém acreditava que eu já soubesse falar, ler e muito menos escrever. Quando algum papel rabiscado era por descuido meu encontrado, minha mãe tratava logo de culpar os moleques da rua. A bizarrice dali era eu. Ao final do terceiro ano de vida ganhei um cachorro e homenageei uma personagem de livro chamando-o de Cão. Ele mostrou-se mais que companheiro, como esperado, mostrou-se aliado fiel e compreensivo, sabendo entender meus segredos e protegendo-os. Apesar de no início incomodar o fato de uma criança tão pequena brincar com um cachorro tão grande, ao final de algumas semanas era comum, e o sossego que minha mãe sentia por não precisar mais se preocupar comigo foi como bálsamo.


domingo, 6 de novembro de 2011

Capítulo I - Relato do dia em que nasci e outros sucessos ...


Quando nasci fez-se noite na cidade. Todos acreditaram que era um eclipse não previsto e apenas minha mãe chorou pela sina que aquela escuridão representava. Eram 13:00 horas. Passou-se um ano de noite triste. Todos os dias eram de um céu sem estrelas, sem lua, e nenhum sinal do sol. Aprendi a andar muito rápido, pois como os animais fui ensinado a sobreviver sozinho. Nunca foi associado ao meu nascimento aquele ano morto, mas não houve nenhuma comemoração também. A igreja apesar das portas sempre abertas viu a fé das senhoras com lenços preto diminuir até o fim. Os homens deixaram-se estar nos bancos da praça, num jogo de damas interminável. Quando as velas acabaram os automóveis foram aposentados, pois usou-se o combustível para as empoeiradas lamparinas, relíquias de bisavós cuidadosas. Ninguém preocupava com os afazeres das casas ou com a lavoura.


Minha primeira palavra, aos 9 meses, não causou espanto: "escuro". Era praticamente o que se ouvia. Ao findar dos 12 meses, exatamente às 13:00 horas notamos o amanhecer. Mas não vimos um dia quente. O sol era morno, de um amarelo apagado. Tudo o que víamos eram plantas pálidas e diminutas. Imperava doenças e miséria pelo vilarejo. A maioria correu para a igreja e encontrou-se um senhor barbudo, fazendo palavras cruzadas, sentado próximo ao altar. Assustado com a volta das carolas o padre tratou de esconder sua revista, e mesmo sem batina propôs que rezassem um terço, pois o milagre da vida deveria ser comemorado. Em silencio tudo assisti, e deixei que pensassem que meus poucos e escuros meses eram insuficientes para que eu entendesse o que acontecia. Mas eu sabia que nunca mais seria como antes.

sábado, 21 de maio de 2011

AmanheceR





Hoje, logo pela manhã, ele entrou pela casa como nunca havia feito antes. Trouxe seus dentes amarelados de Marlboro num sorriso de quem chega sem avisar. Antes mesmo de acordar senti sua presença com o frio do outono, mas por não esperar nada acreditei ser apenas a janela aberta. Ficamos num silêncio sereno por longo tempo. Ele com olhos famintos apreciando eu de camisola surrada e pés descalços. Eu incrédula e sem palavras.


- Aceita um café?

- Para "boca de pito" um forte, como sempre, e como sempre sem açúcar.


Enquanto a água fervia coloquei uma música.


"Can you feel a little love?"


Agora a casa tinha o cheiro que sempre me deixou em transe. Café forte e fumaça de cigarro.


- Quer comer algo?

- Não, não vou demorar (e seus olhos estreitos me diziam completamente o contrário). Somente queria ver como tinha cortado os cabelos. E vejo que não foi nenhuma mudança radical, acho que cheguei cedo.


"Dream on, dream on."


Tomou várias canecas de café e precisei trocar o cinzeiro algumas vezes. Sempre em silêncio. Passaram-se horas antes que ele voltasse a falar:


- Lembra quando disse que seu nome era o nome da amada, para dizer na hora da morte?

Apenas assenti com os olhos.


"It knows its lines

It's well rehearsed".


- Então volto depois, quando o frio estiver perto do fim.


E deixou seu perfume impregnado no sofá. Peguei um pedaço de cobertor antigo e fiquei ali, pelo resto do dia sem entender como o Passado poderia ter um perfume tão doce.