...a última coisa que sobra da pátria é a língua... tenhamos a leveza de estar em todos os lugares sem estar em lugar nenhum.... todos os olhares com os olhos fechados... a saudade de beijos não dados...
terça-feira, 30 de maio de 2017
quarta-feira, 8 de janeiro de 2014
Na beira da estrada
... ainda é possível sentir o cheiro do café recém coado. Aquele aroma invade toda a cozinha e se espalha pela casa. Em volta da mesa sentam-se as sombras. As canecas esmaltadas, com o azul descascado, brincam entre os vazios. Acima do fogão de lenha linguiças defumam-se.
A vassoura ainda limpa os cantos e permite que as aranhas decorem as quinas. Sua teia faz a renda tão delicada que em nenhum outro lugar será encontrada. Fios brancos sobre tijolos em pedaços. O chão de piso batido carrega as marcas de pés e patas. As portas e janelas aceitam o vento, a chuva, o sol. O telhado se alegra com as noites de lua cheia.
Sempre que vejo uma casa abandonada penso nas pessoas e nos sentimentos que moraram ali. Imagino as risadas, as crianças pulando as janelas para brincarem no quintal. O gato que dormia no beiral, enquanto o sol morno fazia da manhã a esperança de tempos melhores. Imagino as noites em que, sentados no quintal, os pais olhavam os filhos e rezavam pela segurança e futuro deles. As camas simples onde os sonhos eram puros.
... ainda é possível sentir o cheiro de quando a água é salpicada no chão para que a vassoura não levante muita poeira. As mãos delicada da filha mais velha zelando pela casa. O filho caçula pedindo por outro pedaço de bolo. A alegria de todos quando o pai trazia um peixe fresco e a mãe já pensando na farra na hora do jantar.
Sempre que vejo uma casa abandonada um buraco em meu peito aumenta. O vazio do outro me invade e eu reescrevo a história que poderia ter sido feita ali. As pessoas agora são sombras que estão grudadas nas paredes e nos pedaços dos móveis. Os sonhos foram absorvidos pelas teias de aranha e apenas as folhas secas brincam pelos cantos, juntamente com o vento.
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Colcha de Retalhos
Quis fazer uma colcha de retalhos com todos os livros que li até hoje. Toda costurada cuidadosamente, com as músicas que marcaram, de uma forma ou outra, a minha vida. Essa colcha não quero que esquente minhas noites ou enfeite meu quarto. No quarto basta a cama voltada para a janela sem cortinas. Deixe o sol entrar sem controle nas manhãs. No quarto basta o vento de ontem. Também não colocarei a colcha na sala, ali ficarão apenas o livros como gatos pelos cantos, o tapete e o sofá. A marca de café no piso eu alimento aos domingos, dia em que reservei para descanso, conforme me foi ensinado. O restante da casa são tijolos, azulejos frios e tinta. Nada mais precisa.
Farei essa colcha para envolver você de mim. Para que todos os meus pedaços de ilusão esquentem sua alma e você possa, em cada retalho, visualizar todos os sonhos que tive. Letras e som. Todas as vezes que sorri, dancei, chorei e senti o coração pequenininho com as personagens, serão agora aconchego em sua pele. E você saberá que o meu maior tesouro lhe foi dado como amor, construído aos poucos e de graça, sem pedir nada de volta.
Quero que cheire como quem cheira um livro que acabou de ganhar e escute cada costura, para sentir a vibração das notas. Quero que descanse ali, com o sossego de quem tem paz nos ossos e a certeza do afeto.
quinta-feira, 20 de junho de 2013
Tempo perdido
Esperando... vejo os minutos escorrerem do relógio e caírem em cacos no chão. Correm para a vala comum do tempo perdido.... tempo que não para.
segunda-feira, 6 de maio de 2013
Lobo da estepE
Não sei vocês, mas eu carreguei comigo, até o presente momento, a tola certeza que teria amanhã, sempre tomando como base o sol que nasce todos os dias. Lembro das aulas de filosofia, que assistia cheia de encanto, na faculdade: "se uma árvore cai, no meio da floresta e não há ninguém para ver, a árvore realmente cai?" ...ou algo assim... Lembro das discussões acaloradas em botecos e percebo como o tempo foi e é cruel, assim como as pessoas. O lobo que caminha sozinho na estepe devora seus pedaços, pois só sua própria carne pode alimentá-lo. Cortei os cabelos e as unhas, mas ainda tem algo em mim que deve ser cortado. Cordão umbilical? Não creio... Crença...crer em quê?
A esperança é como a fumaça desse cigarro. Engana, disfarça, mas se desfaz no ar. A música é essa alma dançando, que no silêncio da noite não sabe o que fazer. Os dedos traem os pensamentos, pois não conseguem acompanhá-lo e registrar o que se passa. Queria de fato saber quais as perguntas certas a serem feitas, pois só assim teria a possibilidade de respostas. Mas a voz não sai e se saísse não ecoaria no vazio. Minha bússola quebrou, e os cacos prenderam-se ao chão. Quão longo um dia pode ser?
segunda-feira, 15 de abril de 2013
Letras
Ao longo da madrugada houve-se apenas as teclas da antiga máquina de datilografia. Surge no papel amarelado os pedaços da alma que teimam em se juntar. Cada letra ganha vida, tatuando nas folhas o que não pode mais ser guardado. Colcha de retalho, dentes-de-leão ao vento. A gaveta da antiga mesa não tem mais espaço, e o chão fica como o quintal no outono. O silêncio tenta confortar e impõe-se diante do relógio de parede sem pilhas.
As mãos não sentem o cansaço e a xícara com o café já frio torna-se auxílio para o cinzeiro transbordante. Todos os dias são iguais, iguais a tantos que andam mancos. Iguais a tantos que andam loucos. Pelos cantos do quarto os livros lembram gatos e o vestido pendurado no cabide grita por sereno, grita por luz do sol.
Um último cigarro enquanto o céu perde seu escuro. Começa um burburinho lá fora. Hora de fechar as cortinas e deixar a mente não pensar em mais nada...
terça-feira, 25 de setembro de 2012
Dez...
Ele imagina ser "dez" um bom número.
Só consigo concordar em três situações.
"Dezpidos" de toda bagagem (incluindo roupas e adornos).
"Deztituídos" de toda culpa e medos.
"Dezbravadores" de gostos e sonhos.
Só consigo concordar em três situações.
"Dezpidos" de toda bagagem (incluindo roupas e adornos).
"Deztituídos" de toda culpa e medos.
"Dezbravadores" de gostos e sonhos.
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