quarta-feira, 27 de abril de 2022

PapelãO



Então a gente vai encaixotando o que ficou, aos poucos, às lágrimas... Chinelos, livros e camisetas... Uma história dentro do papelão. Certamente que o tempo e a poeira acionarão o alarme para limpar as prateleiras do escritório e uma carta, propositalmente guardada entre livros que então faziam sentido, cairá no chão. As mãos irão tremer e reler cada palavra vai fazer sangrar. Descobriremos que o exame do que devia ser guardado, queimado... quase esquecido, foi falho.

Mas antes mesmo da carta cortar os curativos, num gesto de fantasioso controle é removida a foto que aparece quando a pessoa ligava, mesmo porque a gente sabe, nega da boca pra fora mas sabe, que essa pessoa não vai mais ligar.

Repetimos em pensamento, em sussurros, aos berros, que amanhã vai doer menos e menos, uma progressão decrescente de dor, e mentindo esse mantra como consolo, contamos as horas, os cigarros, os cafés. Contamos as tardes dos domingos que agora estão vestidos de um novo tipo de solidão.

Tentamos transformar em ponto final as reticências que pairam no ar, sabendo que logo ali, após a porta que ficou aberta, estão os mais cruéis primeiros: o primeiro Natal, o primeiro Réveillon, a primeira conquista que não será compartilhada, a primeira banda de rock descoberta, o primeiro livro incrível que alguém indicou. Esses primeiros, com seus dentes amarelados de nicotina, desalinhados pelos socos, irão avançar em nosso pescoço. 

Então a gente vai encaixotando o que restou, aos poucos, à seca ... Cacos de sentimento, sobras de planos e sonhos. Um amor dentro do papelão.

segunda-feira, 14 de março de 2022

DelicadezaS

 ... não estão conseguindo limpar a sujeira há muito entranhada nas ruas, casas, veículos, pessoas. Profissionais de limpeza urbana, diaristas, mecânicos, médicos e esteticistas usam verdadeiros arsenais e a sujeita continua instalada, sempre exalando o absurdo da atualidade, derrubando máscaras e desafiando a aspiração ao bom e ao belo.


Diante desse cenário a DelicadezA, cada vez mais tímida, em um desuso esmagador, vestiu-se com a melhor couraça que pode encontrar e refugiou-se da melhor forma que conseguiu, mas não tão distante como gostaria ... couraças são como mágoa ... difícil de serem carregadas, pesam mais a cada passo. Tem sido difícil comer, o alimento é escasso, raro encontrar doçura, suavidade, cortesia... a DelicadezA habita impercebível em gavetas, prateleiras, brinquedos de pelúcia esquecidos no fundo dos armários, nas esquinas, jornais e anúncios de televisão, esmaecendo seu brasão.

Mas ela ainda sobrevive ... vez ou outra encontra quem se delicia com minutos olhando para o céu, quem sorri com boas notícias ou chora dividindo a dor com o outro. Seres que possuem os olhos transbordantes de sentimento, e se recusam a deixar que a sujeira vire uma segunda pele. Quem suspira com o vento no rosto, tem livros e músicas espalhados pelo lar, pelo caminho. A DelicadezA sobrevive nos pequenos gestos, no pão com manteiga, na foto emoldurada, no cheiro do travesseiro numa manhã de sol, na fruta amadurecida no quintal.

A DelicadezA sobrevive, e quem a cultiva espera a era em que será tão corrente quanto a sujeira que hoje a esmaga, pois bem sabem ser utópico um mundo completamente liberto da bestialidade.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

... os moinhos de vento são, de fato, moinhos de vento...
a lança empunhada destina-se a demônios inalcançáveis, internamente distantes...


sexta-feira, 8 de novembro de 2019

DedicatóriA


... dos acontecimentos que despertam um bem estar, um bem querer nos olhos, ver uma dedicatória em um livro comprado em sebo está na lista das dez melhores. quantas histórias as expressões "com carinho" ou "com todo meu amor" carregam. em algumas vezes um "lembrei de você" é mais que um abraço, é um enlaço. 

... acabo de receber pelos correios um novo livro usado...vindo direto de um sebo virtual e ao pegá-lo sinto aquele cheiro de palavras que dançaram já em outras mãos. o cheiro invade todo meu corpo e praticamente flutuo. então acontece: abro o livro e na primeira folha está:



Para Ubaldo, uma pequena lembrança das minhas andanças. Com todo meu amor... Laura.
... e para abrilhantar a dedicatória, uma data:

16/10/1988

e toda magia do um novo livro para leitura ganha novo sabor, novas cores. além da história que ele propõe, tem a história do Ubaldo e da Laura... são 30 anos de uma frase que, nesse exato momento, faz nascer um filme de infinitas possibilidades para eles. que amor era esse, de carnaval ou fraternal? Laura ainda dá livros para Ubaldo? estão vivos... e imagino tudo que veio depois dessa data e, nas minhas ilusões, eles estão agora num café. Laura tem os cabelos curtos, pois cansou do antigo visual. Ubaldo continua leve e sempre viajam, pois as andanças dela agora são deles. algumas vezes as histórias tem brigas. uma mulher simplesmente falando que irá embora, que entende os motivos do homem mas, não consegue ficar. em outras vezes ela está com os olhos transbordantes. mas não gosto muito dessas vertentes. confesso que prefiro as doçuras de "ficaram felizes".

o novo livro usado, mais que uma nova história, trouxe horas e horas da crença no lado bom da vida. crença de que os livros são fundamentais nos contos cotidianos de cada um.







segunda-feira, 18 de março de 2019

EpifaniA





Uma poltrona no canto da sala
Sentada
Na janela a chuva
Para alguns uma cena ensaiada
De novela ruim, filme ruim, 

Era minha epifania.

Você entra pela porta
Traz em uma das mãos o café
Na outra dois cigarros
Um pousa em minha boca
Após um beijo delicado

Era minha epifania

Letras embaralhadas
As frases já estampadas
Em pernas, braços, barriga
A poesia viva
Escrito com sua língua.

Era meu (...)

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

O maR



Quis escrever um poema ... os dedos já não me obedecem como antes. 
Um pequeno conto talvez, ou simplesmente um hai-kai.

Sentada num lugar comum, apátrida, consigo visualizar todas as palavras perdidas. 
Elas dançaram em meus pensamentos durante as últimas horas.
As palavras ficaram velhas até.
Marcado na minha pele um mar revolto: seus olhos. 
Um mar carregado hoje do mesmo brilho de ontem. 
Mergulho nesse mar.

Fumaças de cigarro pela janela. Sentidos despertos.
Os livros em cima da mesa são como gatos.
O uísque ao longo da noite, uísque carregado de música.
O café forte ao acordar e as curvas da estrada que fazem meus braços procurarem as suas.

As ruas calçadas com pedras, que teimam em me deixar ir. 
Um tempo que não para. Horas que não cessam.

Cada segundo.
 

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

... dO AMOr...

a ultima vez que te vi era um sábado. havia chovido e eu dirigi por muitos quilômetros até encontrá-lo. ali já te amava. um sentimento que poucos conhecem e menos ainda são os que entenderiam. você soube no dia em que me conheceu que eu estaria destinada a esse eterno amor. 
a última vez que te vi era um sábado. havia chovido e eu estava com uma camiseta branca. ali já te via com os olhos livres. ali já te desejava o mundo, mesmo que já o tivesse.
a última vez que te vi era um sábado. havia chovido e eu mantive o silêncio de quem se basta com a certeza de amar. tomei meu café próximo a uma grande parede de vidro, aproveitei o vento da cidade interiorana para um cigarro e voltei para minha casa com toda felicidade que cabia no coração.
a última vez que te vi era um sábado. havia chovido e por um motivo inexplicável eu não consigo recordar se toquei em sua mão, mas eu consigo, perfeitamente, sentir seu cheiro. 
a última vez que te vi era um sábado. havia chovido e eu queria te dizer dos sorrisos que conseguiu fazer brotar na minha boca. queria te contar das vezes que chorei com as suas palavras, mas em nenhum desses momentos faltou amor. é um amor que poucos conhecem e menos ainda são os que entenderiam. 
a última vez que te vi era um sábado. havia chovido e eu tive certeza que aquele lugar seria meu. lugar de quem ama e não espera por mais nada além da existência do ser amado. saber de suas andanças alegra meus olhos. escutar suas leituras faz minh'alma dançar. e fica tudo tão leve. te ler é bálsamo. 
a última vez que te vi era um sábado. havia chovido e ficou no meu coração uma prece diária por não ter sido a última vez que te vi.